novembro 29, 2009

PARNASIANISMO



PROFISSÃO DE FÉ
Olavo Bilac




Le poète est cise1eur,

Le ciseleur est poète.

Victor Hugo.



Não quero o Zeus Capitolino

Hercúleo e belo,


Talhar no mármore divino



Com o camartelo.




Que outro - não eu! - a pedra corte



Para, brutal,



Erguer de Atene o altivo porte



Descomunal.




Mais que esse vulto extraordinário,



Que assombra a vista,



Seduz-me um leve relicário



De fino artista.




Invejo o ourives quando escrevo:



Imito o amor



Com que ele, em ouro, o alto relevo



Faz de uma flor.




Imito-o. E, pois, nem de Carrara



A pedra firo:



O alvo cristal, a pedra rara,



O ônix prefiro.




Por isso, corre, por servir-me,



Sobre o papel



A pena, como em prata firme



Corre o cinzel.




Corre; desenha, enfeita a imagem,



A idéia veste:



Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem



Azul-celeste.




Torce, aprimora, alteia, lima



A frase; e, enfim,



No verso de ouro engasta a rima,



Como um rubim.




Quero que a estrofe cristalina,



Dobrada ao jeito



Do ourives, saia da oficina



Sem um defeito:




E que o lavor do verso, acaso,



Por tão subtil,



Possa o lavor lembrar



de um vaso De Becerril.




E horas sem conto passo, mudo,



O olhar atento,



A trabalhar, longe de tudo



O pensamento.




Porque o escrever - tanta perícia,



Tanta requer,



Que oficio tal... nem há notícia



De outro qualquer.




Assim procedo. Minha pena



Segue esta norma,



Por te servir, Deusa serena,



Serena Forma!




Deusa! A onda vil, que se avoluma



De um torvo mar,



Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma



Deixa-a rolar!




Blasfemo> em grita surda e horrendo



Ímpeto, o bando



Venha dos bárbaros crescendo,



Vociferando...




Deixa-o: que venha e uivando passe-



Bando feroz!



Não se te mude a cor da face



E o tom da voz!




Olha-os somente, armada e pronta,



Radiante e bela:



E, ao braço o escudo> a raiva afronta



Dessa procela!




Este que à frente vem, e o todo



Possui minaz



De um vândalo ou de um visigodo,



Cruel e audaz;




Este, que, de entre os mais, o vulto



Ferrenho alteia,



E, em jato, expele o amargo insulto Que te enlameia:




É em vão que as forças cansa, e â luta



Se atira; é em vão



Que brande no ar a maça bruta



A bruta mão.




Não morrerás, Deusa sublime!



Do trono egrégio



Assistirás intacta ao crime



Do sacrilégio.




E, se morreres por ventura,



Possa eu morrer



Contigo, e a mesma noite escura



Nos envolver!




Ah! ver por terra, profanada,



A ara partida



E a Arte imortal aos pés calcada,



Prostituída!...




Ver derribar do eterno sólio



O Belo, e o som



Ouvir da queda do Acropólio,



Do Partenon!...




Sem sacerdote, a Crença morta



Sentir, e o susto



Ver, e o extermínio, entrando a porta



Do templo augusto!...




Ver esta língua, que cultivo,



Sem ouropéis,



Mirrada ao hálito nocivo



Dos infiéis!...




Não! Morra tudo que me é caro,



Fique eu sozinho!



Que não encontre um só amparo



Em meu caminho!




Que a minha dor nem a um amigo



Inspire dó...



Mas, ah! que eu fique só contigo,



Contigo só!




Vive! que eu viverei servindo



Teu culto, e, obscuro,



Tuas custódias esculpindo



No ouro mais puro.




Celebrarei o teu oficio



No altar: porém,



Se inda é pequeno o sacrifício,



Morra eu também!



eu também, sem esperança,



Porém tranqüilo,I



nda, ao cair, vibrando a lança,



Em prol do Estilo!










Fonte: www.biblio.com.br








Diferentemente do Realismo e do Naturalismo, que se voltavam para o exame e para a crítica da realidade, o Parnasianismo representou na poesia um retorno ao clássico, com todos os seus ingredientes: o princípio do belo na arte, a busca do equilibrio e da perfeição formal. Os parnasianos acreditavam que o sentido maior da arte reside nela mesma, em sua perfeição, e não em sua relação com o mundo exterior.

O movimento parnasiano teve grande importância no Brasil, não apenas pelo elevado número de poetas, mas também pela extensão de sua influência. Seus princípios doutrinários dominaram por muito tempo a vida literária do país. Na década de 1870, a poesia romântica deu mostras de cansaço, e mesmo em Castro Alves é possível apontar elementos precursores de uma poesia realista. Assim, entre 1870 e 1880 assistiu-se no Brasil à liquidação do romantismo, submetido a uma crítica severa por parte das gerações emergentes, insatisfeitas com sua estética e em busca de novas formas de arte, inspiradas nos ideais positivistas e realistas do momento.
Dessa maneira, a década de 1880 abriu-se para a poesia científica, a socialista e a realista, primeiras manifestações da reforma que acabou por se canalizar para o parnasianismo. As influências iniciais foram Gonçalves Crespo e Artur de Oliveira, este o principal propagandista do movimento a partir de 1877, quando chegou de uma estada em Paris. O parnasianismo surgiu timidamente no Brasil nos versos de Luís Guimarães Júnior (1880; Sonetos e rimas) e Teófilo Dias (1882; Fanfarras), e firmou-se definitivamente com Raimundo Correia (1883; Sinfonias), Alberto de Oliveira (Meridionais) e Olavo Bilac (1888; Poesias).
O parnasianismo brasileiro, a despeito da grande influência que recebeu do parnasianismo francês, não é uma exata reprodução dele, pois não obedece à mesma preocupação de objetividade, de cientificismo e de descrições realistas. Foge do sentimentalismo romântico, mas não exclui o subjetivismo.
Sua preferência dominante é pelo verso alexandrino de tipo francês, com rimas ricas, e pelas formas fixas, em especial o soneto. Quanto ao assunto, caracteriza-se pelo realismo, o universalismo e o esteticismo. Este último exige uma forma perfeita quanto à construção e à sintaxe. Os poetas parnasianos vêem o homem preso à matéria, sem possibilidade de libertar-se do determinismo, e tendem então para o pessimismo ou para o sensualismo.
Além de Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac, que configuraram a trindade parnasiana, o movimento teve outros grandes poetas no Brasil, como Vicente de Carvalho, Machado de Assis, Luís Delfino, Bernardino da Costa Lopes, Francisca Júlia, Guimarães Passos, Carlos Magalhães de Azeredo, Goulart de Andrade, Artur Azevedo, Adelino Fontoura, Emílio de Meneses, Augusto de Lima e Luís Murat.
A partir de 1890, o simbolismo começou a superar o parnasianismo. O realismo classicizante do parnasianismo teve grande aceitação no Brasil, graças certamente à facilidade oferecida por sua poética, mais de técnica e forma que de inspiração e essência. Assim, ele foi muito além de seus limites cronológicos e se manteve paralelo ao simbolismo e mesmo ao modernismo.
O prestígio dos poetas parnasianos, ao final do século XIX, fez de seu movimento a escola oficial das letras no país durante muito tempo. Os próprios poetas simbolistas foram excluídos da Academia Brasileira de Letras, quando esta se constituiu, em 1896. Em contato com o simbolismo, o parnasianismo deu lugar, nas duas primeiras décadas do século XX, a uma poesia sincretista e de transição.

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